Projeto de extensão da São Judas incentiva troca de cartas escritas à mão entre alunos e idosos

‘Escrita afetiva’ teve objetivo de driblar a solidão acarretada pela necessidade de se isolar como forma de proteção ao coronavírus

A necessidade do isolamento social exigida pela pandemia pode significar muita solidão para quem mora sozinho. A população idosa, mais vulnerável ao coronavírus, tende a sentir ainda mais esses reflexos, que muitas vezes impactam a saúde mental. 

Pensando em amenizar esses ‘efeitos colaterais’ sociais causados pela pandemia, a Universidade São Judas implementou no semestre passado o projeto de extensão “Escrita afetiva: palavras de esperança em tempos de distanciamento social.” O trabalho previa que os universitários trocassem cartas escritas à mão com idosos, do seu âmbito familiar ou não. 

A professora Margarete Dias de Brito, coordenadora do projeto, conta que os alunos escolheram vizinhos, avós e conhecidos dos amigos e parentes que moram no interior de São Paulo e em cidades do Norte e Nordeste do país para se corresponderem. 

“Teve ainda gente que optou por escrever para idosos que admiravam, mas nunca haviam conversado antes. Quando pensei no projeto, queria algo que ajudasse neste momento da pandemia. Penso no meu caso: estou em home office há um ano, interajo com as pessoas da casa, mas me coloco no lugar dos idosos que estão sozinhos e muitas vezes longe da família”, conta a professora Margarete, que leciona para os cursos das áreas de Gestão e Negócios. 

Cerca de 25 alunos de diferentes cursos da Unidade Vila Leopoldina da São Judas, como Psicologia, Administração, Marketing, Recursos Humanos, entre outros, participaram da atividade. Eles tinham de enviar pelo menos quatro correspondências quinzenais, e o combinado era de que o destinatário respondesse, dando fluidez à comunicação. Havia um critério obrigatório: as cartas deveriam ser escritas à mão, textos digitados no computador e impressos, não eram aceitos. 

Desabafos e emoção

A professora Margarete lembra que orientou os alunos a serem gentis na primeira correspondência, demonstrando empatia e mostrando interesse em saber como eles estavam enfrentando este momento da pandemia, como forma de “quebrar o gelo” do contato inicial e garantir um maior entrosamento e simpatia. 

Aos poucos, destinatários e remetentes foram ficando mais afinados e passaram a trocar desabafos e lembranças. Toda semana quatro cartas recebidas pelos estudantes eram selecionadas e lidas durante a aula virtual com a presença de todos os alunos. 

“Os idosos começaram a compartilhar histórias, retratando o passado, alguns enviavam até fotos. Tinha alunos que até choravam quando líamos as cartas, porque se comoviam com as histórias, foram momentos de extrema emoção”, diz a professora.  

Ensinamento para ambos os lados

A prática, além de resgatar o velho e romântico hábito de trocar cartas, permitiu que os jovens tivessem maior interação com os idosos, um público que não muitas vezes eles não acessam. “Estes, por sua vez, têm um pouco de resistência em lidar com os jovens, mas foi possível comprovar que apesar da pouca idade também podem trazer aprendizado. Algumas cartas mostraram ensinamentos para ambos os lados.”

Tanto que, mesmo ao fim do projeto que durou três meses, muitas das duplas continuaram a manter o contato por meio das cartas.