

Neste ano, o Concurso de Poesias Prof. Fábio Teixeira completa a maioridade. Foram dezoito anos revelando talentos da expressão sintética e metafórica da vida.
Debruçados sobre si mesmos, numa auto-contemplação, esses poetas incipientes (alguns nem tanto) percorreram os desvãos de suas almas e corajosamente as expuseram ao crivo analítico de alguns estudiosos do assunto.
Dezoito anos, milhares de poemas, sonoras audições coloridas do aroma, sinestesias puras!
O concurso não só remata o simpósio Multidisciplinar, mas coroa-o com o que se tem de mais sublime: o som dos corações.
Quem venceu o concurso? Todos. Todos nós, banca, professores, alunos, funcionários e público. Foi uma viagem sedutora às profundezas da emoção.
Ano após ano, cresce o número de participantes. Sinal inequívoco de que não só de matéria vive o homem.
OFÍCIO DE POETA
No meio do caminho
Há tantas pedras
Tento por entre elas
Garimpar forças
Para manter vivo
O meu ofício de poeta
Minha cidade já não respira
Nuvens vestidas com túnicas negras
Movem-se lentas, chorosas
Sentem o peso do chumbo,
Do enxofre e do alumínio
Curvar suas costas idosas
Minha família já não fala
Nenhum vizinho nem os amigos
Ninguém se comunica
A voz não tem vez
Se esvai, se retrai, se confina
E quem fala não fala, grita
Minha pena já não caminha
No ritmo da linha de montagem
Na velocidade do trem-bala
A inspiração não frutifica
No compasso contínuo de balas perdidas
A caneta empedrada e vazia
Anseia poder se recompor
Com uma última carga de amor
Augusto César Vassilopoulos Natal
SE EU FOSSE UM RIO
Se eu fosse um rio...
Diria que você me tinha desviado o curso.
E me feito amar esse novo percurso.
Se eu fosse um rio...
Diria que você me tinha alterado a vazão.
E me feito irrigar, fecundar outro chão.
Se eu fosse um rio...
Diria que você me tinha alterado, das águas , o pH.
E me feito ter espécies que em outras águas não há.
Se eu fosse um rio...
Diria que você me tinha ensinado, com esse seu jeito,
A lavrar gemas de diamante, no cascalho do meu leito.
Mércia da Conceição Fernandes
OLHOS DE SAPUCAIA
Quando enfim se conhece o bom perfume
Das delicadas flores de tua saia,
Seda dita chinesa é só cambraia,
Torna-se brim e em chita se resume...
Ver-te em porto seguro se presume,
Desde que o noroeste não recaia,
Porque tom torpe tu tens na gandaia,
Em que a vulgaridade vem a lume...
Da madeira da casa lá da praia,
Ou da grosseria que faz o apanágio,
Por mais que minimize e subtraia,
Pouco sobeja de útil no sumário,
Dado que és tão somente sapucaia,
Conforme testemunho em dicionário...
André Luiz de Abreu
POEMA DO COGITO
E eu
Tantas vezes torto
Tantas vezes outro
Muitas vezes mim
Nem sei direito
Nem sequer vejo
Nem mesmo percebo
E sou sempre contra todos
Só contra todos
Eu mesmo perante mim
Meio que traído
Meio que ridículo
Meio que fingido
Eu nunca conheci que levasse mais porrada
Nunca conheci quem fosse mais doente
Nunca conheci alguém mais vil
Sei da minha infâmia
Sei da minha tristeza
Sei da minha covardia
Preço sempre para os campeões
Alguns heróis
Invariavelmente vencedores na vida
Eu sou um perdedor
Um mentiroso
Um azarado
Eu, completo, pedaço de mim
Eu, cópia, dublê do mesmo
Eu, inominavelmente eu.
Rodrigo Augusto Suzuki Dias Cintra
“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões
em tudo”
Fernando Pessoa/ Álvaro de Campos
