Neste ano, o Concurso de Poesias Prof. Fábio Teixeira completa a maioridade. Foram dezoito anos revelando talentos da expressão sintética e metafórica da vida.
Debruçados sobre si mesmos, numa auto-contemplação, esses poetas incipientes (alguns nem tanto) percorreram os desvãos de suas almas e corajosamente as expuseram ao crivo analítico de alguns estudiosos do assunto.
Dezoito anos, milhares de poemas, sonoras audições coloridas do aroma, sinestesias puras!
O concurso não só remata o simpósio Multidisciplinar, mas coroa-o com o que se tem de mais sublime: o som dos corações.
Quem venceu o concurso? Todos. Todos nós, banca, professores, alunos, funcionários e público. Foi uma viagem sedutora às profundezas da emoção.
Ano após ano, cresce o número de participantes. Sinal inequívoco de que não só de matéria vive o homem.

Everaldo de Almeida Santiago
Dias de chuva
São dias de molhada preguiça,
Da seca vontade de não fazer nada.
Acorda-se tarde, pensando ser cedo;
Dorme-se cedo, pensando ser tarde.
Pingos de chuva são como
Passos do ponteiro,
Com vagareza vão passando,
Debruçados em lentidão, vão encharcando.
O dia escuro, tudo deitado,
Muitos encolhidos,
Os orvalhados são os mais lindos.
Se balançá-los, dão uma mini-chuva,
Segundos de surpresa e incômodo
A terra vira massa
A rechear os chinelos
E a grudar nos sapatos,
Dando queda em apressados e descuidados.
A chuva lenta, tudo silencia:
O espaço fica calmo e triste,
Até parece que a face da terra
Está chorando,
Um chorinho dengoso e
Bem preguiçoso.

Bruno de Alencar Pereira
Visto máscaras.
Não sei quem sou,?
Nem sei se sou eu mesmo,
Ou se penso ser.
As mentiras que conto,
E se minto pensando
Em ser, ou querendo
Saber se não sou
Ou ao saber
Que o que não sei,
Sou alguém além
Do pensar que pensei.
Faço promessas,
Visto figuras,
Teatro às avessas,
Canduras,
Couro puro
De um ser escuro.

Fernanda Rodrigues de Oliveira
Na ruptura dos raciocínios
lógicos e imprecisos,
sigo sentindo isto
que é o sentimento sem saber sentido.
Na noite nublada:
ventania...
Na dor há paixão,
sintonia!
Na busca do prazer:
maldade
- que todos os corações parte!
Porque a força de atração
é a docura,
que dá o bote
com candura
(e à sua vítima se enrola,
- abraço forte!).
E seu amor nos leva até a morte!

Rodrigo Vieira de Almeida
Dança Flor espanhola, dança!
O vestido toca o chão.
Velado vermelho escuro, dança!
Movimento hipnótico das mãos.
Canta Flor espanhola, canta!
O vestido, o toque, a paixão.
Velado vermelho escuro, encanta!
Movimento suave das mãos.
Aflora Flor espanhola, aflora!
A dança hipnótica do amor.
Aflora pequeno botão de outrora!
Velado vermelho escuro, de amor.
Chora FLor espanhola, chora!
Frágil criança de amor.
Violado vermelho escuro, chora!
Um grito rápido de dor.
Morre Flor espanhola, morre!
O vestido, o sangue, a paixão.
Violado vermelho escuro de morte!
Movimento brusco das mãos

Fernando Alves Medeiros
Saindo apressado eu vou, mas não vou determidado;
Vou cambaleante,
Indeciso entre dois camminhos gigantescos, fortes e distintos:
Duas coisas que lutam entre si e se completam...
- Zero e um.
Na minha aventura estranha
(Aventura essa que nenhum livro quis contar),
Tento percorrer a senda mágica das palavras
Ainda com meu gibão de números gráficos fazendo presença e escandalizando.
E minha luta é este poema
Onde apanho do sentimento ou tento de leve mensurá-lo
Com réguas, esquadros e paquímetros que não me dizem absolutamente nada.
Se engenheiro quero ser (e luto)
E se números da fria matemática me adotaram,
Não quero trair a mim mesmo quando canto esta minha elegia rouca e talhada a
ferro,
E quando eu tento - mais do que pedra - ser algo mais humano, buscar um
momento de lirismo que foge das minhas mãos rústicas, e ser às vezes emotivo,
romântico, saudosista, fantasista, vivamente poeta,
Enquanto a realidade,
Com xícaras de desengano,
Me convida a apalpar a vida em vez de idealizá-la com romantismo.
A dúvida vira assim minha irmã e companheira;
Cresce e me arrasta quando sinto meu cotidiano além de vivê-lo nas esquinas de
minha história.
Caminhando vou como bêbado
Mas me esforço que uma reta falsamente perfeita ainda saia dos passos meus.
Ah! Meço, traço, corto, construo e calculo buscando originalidade;
Faço arte de ourivesaria naquilo que é incerto e tão impalpável,
E lanço maciços alicerces no Nada.
Se no fluxo elétrico de minhas impressões e sentimentos
Não consigo ser claro,
Percebo que minha meta não é alcançada
E de novo encontro a Ilusão atrás da minha porta.
Pois nessa ambigüidade, meu caro, eu lanço desafios e fujo deles como covarde
(Embora a hombridade de minha profissão me obriga a encará-los).
Amarro com força coisas que não podem jamais juntas ficar
E me alegro com o resultado.
Números e letras fazem brigas, mas se entrelaçam,
Brincam na periferia do meu eu mortal, a linha tênue que separa a beleza do
sonho e a bruteza da realidade;
Eu me confundo quando persigo razões no que é ilógico.
Até porque, neste meu delírio, eu me regozijo diante de um encanto
absurdamente musical:
De ser da vida um eterno e louco aprendiz
E dela o mais fugaz dos professores!
Meu poema nasce então com duras retas e curvas sensuais.
Sobe os montes como pluma,
Aninha-se na palma de minha mão como moeda - e marca como tatuagem -,
Enquanto eu às tontas caminho nessa minha quixotesca dualidade
E não quero parar mais.