

Augusto César Vassilopoulos Natal
No meio do caminho
Há tantas pedras
Tento por entre eles
Garimpar forças
Para manter vivo
O meu oficio de poeta
Minha cidade já não respira
Nuvens vestidas com túnicas negras
Movem-se lendas, chorosas
Sentem o peso do chumbo,
Do enxofre e do alumínio
Curvar suas costas idosas
Minha família já não fala
Nenhum vizinho nem os amigos
Ninguém se comunica
A voz não tem vez
Se esvai, se retrai, se confina
E quem fala não fala, grita
Minha pena já não caminha
No ritmo da linha de montagem
Na velocidade do trem-bala
A inspiração não frutifica
No compasso contínuo de balas perdidas
A caneta empedrada e vazia
A nseia poder se recompor
Com uma última carga de amor

Mércia da Conceição Fernandes
Se eu fosse um rio...
Diria que você me tinha desviado o curso
E me feito amar esse novo percurso
Se eu fosse um rio...
Diria que você tinha alterado a razão
E me feito irrigar, fecundar outro chão
Se eu fosse um rio...
Diria que você me tinha alterado, das
águas , o PH.
E me feito ter espécies que em outras
águas não há.
Se eu fosse um rio...
Diria que você me tinha ensinado, com
esse seu jeito
A lavrar gemas de diamante, no
cascalho de meu leito.

André Luiz de Abreu
Quando enfim se conhece o bom perfume
Das delicadas flores da tua saia
Seda dita chinesa é só cambraia
Torna-se brim e em chita se resume...
Ver-te em porto seguro se presume,
Desde que o noroeste não recaia,
Porque tom torpe tu tens na gandaia,
Em que a vulgaridade vem a lume...
Da madeira de casa lá da praia,
Ou da grosseira que faz o apanágio,
Por mais que minimize e subtraia,
Pouco sobeja de útil no sumário
Dado que és tão somente sapucaia,
Conforme testemunho em dicionário...
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