

Marcos Antônio Lizardo
Brinca comigo à vida
Mente que brinca e fere
Fere brincando comigo
Dia a dia sangrando
Uma tão aberta ferida
Séria e brinca ainda
De pintar dias tristes
E tristes madrugadas
Depois de notes escuras
Brinca a vida de estar morta
E linda
Brinca a vida e amanhece
Mais um dia sangrando
De ferir sempre brincando
Brinca a via e esquece
Essa aberta ferida a doer
E assim a vida vai passando
Eu o mesmo sempre sangrando
Tão incapaz de esquecer
A vida sempre brincando
Como quem não conhece
Um outro jeito de doer
Um nada que parece
Tão duro de se viver
Porque a vida brinca
E mente que brinca
Quando só fere
Nada mais sabe fazer
Do que ferir e brincar
De pintar-me tão triste
Em noites tão escuras
E não resiste
As madrugadas tão claras
Em brincar insiste
E em ferir ainda
E brinca e fere
Só na finda

Fábio Richard de Lima
Faço da fala uma arma
Digo o que penso,
Não penso em reflito.
Que se dane toda ordem,
Que morra toda alma sã.
Quero o mundo para os pecadores;
Para os que amam e se arrependem.
Quero a crítica, a censura,
A ofensa, a descrença.
Quero amar, odiar
Blasfemar, acusar.
Que todo meu corpo possa sentir;
Que a alma e a carne sofram.
Só não quero passar a vida
Como palavra não dita.
Mal-dita, calada.

Deise Miriam Rossi
O crepúsculo de um novo dia
Deveria esboçar um novo começo.
O cotidiano deste dia não possui
Os peixes, as ilhas,
as águas do mar!
Nem as gaivotas,
Nem os pássaros ajudam um horizonte avistar!
O olhar se tornou concreto
No ritmo pulsar das avenidas!
São Paulo desperta
No burburinho de sons,
Nas paisagens gatunas.
De cimento;
A lei da sobrevivência
escancara as linhas da realidade;
nela, os poetas são seres de plástico.
Nela, os corações de pedra
ajudam o capital aumentar.
Vai fantasia!
Assusta o redemoinho vazio de Deus!,
assusta o pelejo executivo
a pensar naqueles que nasceram sem mar!
As portas de aço do Metrô
Abrem e fecham...
no correr de passos apressados
os lírios e as rosas obedecem
a face oculta dos rostos sem lembranças,
das almas engasgadas,
dos bolsos amassados.
Vai vida encharcar de pérolas
as vidas desalmadas!
E cava na sarjeta da esperança
Uma rosa dália,
Um desejo de sonhos de paz!
Nas escadas rolantes do Metrô.
As peças de engrenagem do sistema
Serpenteiam algozes,
O pulsar descontrolado do ritmo da cidade.
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