

Rodrigo M. Blanco
Ainda mastigo seu beijo.
Na cama amassada,
o lençol do avesso
parece meu pensamento.
Na roupa colada no corpo
Seu cheiro aos poucos se esvai
E a noite clareia e amanhece
É o beijo amanhece na boca
E o café e o cigarro e o pão
E as amarguras do dia
Descem goela abaixo.
E o seu beijo se esconde
Nos cantos da minha boca
E nem o fio dental encontra.

Letícia Kasperavicius
Quero que engula
a minha carne crua, nua
sou a tua gula
quero que cais
e não saia
da baia do redemoinho
nosso ninho
entre na ciranda,
roça, anda!
A língua dança lisa
e alias molhada,
a salva prateada
contorna, encharca
inunda tempestade!
Arca comigo
morda um pedaço da noite,
caco de vidro
o vermelho revolto
tece a calmaria
divaga no angar
cede à ventania
perambula,
embrulha a dor
e adormece,
depois que amanhece
o dia
Ninho de cheiro nosso
de pelo, cabelo
o elo é o zelo
recanto ardente
quem tem o pente
desvencilha o embaraço
teu ente é o meu regaço
nós, nesta ilha
na qual acho
tua via, ousadia
no teu abraço encaixo
o meu cansaço

Elisa de Sá Lago
Linha amarela delimita o espaço
Entre o abismo e a multidão,
percorro o meio fio, deslizo
catracas matracas à procura
d’um amanhecer morno, cinzento
...desta primeira quaresma,
espero a lembrança
no canto do quarto do espelho...
moleques de rua
a beira da praça
bola, pique, prosa,
pedidos de colo
com o saco de cola nas mãos
...seus olhos vermelhos
deturpam meus sonho:
insônia...
moleques descalços
à beira da praça
fruto e adubo
das nossas desgraças
a linha amarela delimita
o espaço entre o abismo e a multidão
(mantenha distância)
notícias amanhecidas na página
qu’encobria o corpo inerte na catedral,
um anjo, talvez,
mundo cético absorto em sua
morna solidão.
© 2000 / 2010 Universidade São Judas Tadeu