XX Concurso de Poesia
Simpósio MultidisciplinarPortal São Judas
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2002
1º Lugar

Construiremos o Mundo Com Palavras

Mauro Cunha Filho

Montada em carruagem de fogo
Minha poesia transcende
E caminha não mais solitária,
Entre ruas contemporâneas,
Meio a ciganos, crianças e transeuntes.

Um ocaso, quase plúmbeo,
Remete-me como que a fotos empoeiradas do dezessete:
Espadas, canhões, cruzes, castelos,
bandeiras e cavaleiros:
Nascia a máquina escrava
Do homem escravo.

Eis que, macunaimamente, respiro-me na cova
E estou, código de barras, vivo.

Nuvens intangíveis. O céu, o sol, o sal
do corpo
Anjos de papel, livros voam, flutuam
anta meus olhos.
Agora sou e estou
“Let it be” cartesiano,
Acorrentado ao meu próprio verso
Tal e qual Prometeu.

Uma brisa relapsa visita-me.
Há, percebo uma espécie de nostalgia
fantasiada de futuro:
Mascaras venezianas bailarinas,
Gotas doces, amazônicas florestas
mediterrâneas,
Mares mortos de sede e solidão:
O cárcere dos segundos.
Nas minhas veias e artérias corre o tempo.
Cemitérios incas do meu peito,
Águas em forma de Tales,
Éguas brancas sob amazonas negras,
Gaivotas pairam e ensaiam um
espacato cênico,
Sou a sombra da minha sombra,
Deixo de seu, não há mais
poesia, procuro na tocha o fogo,
Não há. Nem todo é fogo.

Viveremos reféns de uma estirpe bela e eterna:
A poesia.
Debruçados estamos sobre uma palavra,
Para nós estranha,
Antiga e ininteligível,
Ente que não se expressa,
Mas que a tudo habita
E ruge nos mais profundo âmago.
Leão? Animal-constelação.

Um beija-flor de cristal transparente
Sobrevoa a muralha de louça chinesa.

Somos a História.
Não a construiremos com armas,
Mas, sim, com palavras.

2º Lugar

Seis Temas Sobre a Morte

Maurício Duarte dos Santos

I
A aurora e um outono;
no ar o rasgo de um
silvo de prata: o sopro
do vento revela mais
um morto

II
Um barco, um homem e o
mar aberto. O oceano implacável
abarca o palpitar do pulso solitário:
a morte estende os seus domínios.

III
A paixão desgarrada, o alheamento
a todo sangue, o fracasso inevitável,
a mesquinhez recôndita das aspirações
banais. Eis que irrompe o peitoral de
um monumental edifício: o suicida
encontra sua verdade.

IV
As rosas dispostas aleatoriamente pela
sala exalam seu mutismo vermelho e
a cruz dependurada e indiferente ao
discurso do padre e aos olhos úmidos
e bocas salgadas que pranteiam o
pequeno anjo encerrado no caixão: o
oculto, impiedoso, cumpre seu desígnio

V
Anunciado o fim da guerra, um festival
de lenços brancos agita-se na pedra do
porto. O navio atraca repleto de sombras:
o coração da mãe cujo filho não veio é
agora uma rocha maior do que o cais.

VI
O matador de aluguel aguarda seu alvo
na esquina, enleado na fumaça e nos
vapores da fatalidade. O assassino
dispara a pistola com seus dedos
metálicos e assiste ao cadáver sucumbir no chão
São tantos outros mortos desfilando em suas
retinas, que já não sente nada, nem um resquício
sequer de piedade. Resignado, pensa
que este foi o único caminho que lhe restou.
Duas horas depois, na igreja, ajoelha e derrama
Sua penitência: a morte está também
em quem vive

3º Lugar

Augusto dos Anjos Revisitado

Plínio Junqueira Smith

Deitei-me, duro e doido por dentro,
No dentista, em sua dura cadeira,
O dente, rachado e dividido na beira.
Com fratura interna, de meu ódio era o centro.

O endodontista, em toda sua ortodoxia,
Abriu verticalmente meu canal,
Após vê-lo podre e doente na radiografia.
Eu, da vida, vislumbrei algo visceral.

Da dor difusa, intensa e insuportável,
Depreende-se, de dentro do próprio dente,
De sua pulpa calcificada, ainda quente
E inflamada, a lição mais palpável.

A vida arde em constante dor interna,
Frente a qualquer excitação, fraca ou forte:
Frio, calor, e a pressão eterna da morte,
Tudo afeta terrivelmente a alma terna.

A infame, maligna dor de dente
Absorvia toda minha concentração
E inteiramente absorto no dente malsão
Mastiguei, sofrido, o alimento resistente.

Agora, entretanto, confesso ainda um
pouco tenso
Feito o canal, até o assoalho, desde o teto,
Dissipou-se o sofrimento por completo
E, aliviado, já sem senti-lo, nele ainda penso.

Livre de cativeiro que minha
consciência prendia
Posso pensar livremente em tudo
Penso, pois, no preço pago, um preço bojudo:
Meu dente perdeu a vitalidade e a luz do dia

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