

Charles Gentil
Tenho nojo
Tenho asco
Destes versos
Destes restos
De lembranças
Doloridas
Das imagens
Tão sofridas
Tenho repúdio
Tenho aversão
Destes versos
Destes restos
De ilusão
Tenho ódio
Tenho enjôo
Menospreza
Destes versos
Destes restos
Excrementos
Da paixão
Tenho repulsa
E escarro
E execro
E condeno
Estes versos
Estes restos
Circunspectos
Que dissecam
Uma alma
Uma vida
Um passado
Uma ferida
Estes versos
Estes restos
Que exumam
Que dissecam
Eu execro
Eu condeno
Estes versos
Estes restos

Augusto César Vassilopoulos Natal
eu
que despendi de todas as horas para
fazer de mim
o que sou e não o fiz
que simulei em muitas manhãs de
outono como me despir
do que não cria e não me despi
que em leitos de prazer infinitas
mulheres provei
e nem assim tive mulheres ou filhos
que na aguda madrugada enquanto
dormia enverguei
cordas adornando o meu pescoço e não
as desatei
que cheguei perto perto perto de meu
caminho e por ter chegado perto não heguei
que cheguei sempre antes do combinado
quando melhor seria atrasar
que lutei feito cavaleiro obstinado por sonhos
que não me diziam respeito
que mastiguei o pão que o diabo amassou
só para mostrar a não sei quem que podia mastigar
[o pão que o diabo amassou]
que prometi dividir com todos o que não tinha
e quando tive desisti, pois preferi conservar
o que consegui
entro pelo corredor estreito
do meu apartamento de um dormitório
depois me deito
numa cama de casal
olho pro feto
pego um cinzeiro
seguro um maço
retiro um cigarro
e penso em todo esse nada
em um único trago

Marcos de Souza Lemos
Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Ricardo Reis
Quero que hoje o sol não apareça,
pois dorme Psiquê no alto da colina
grega e
tão tranqüila e fresca me parece
que os raios solares a perturbariam.
Pelas redondezas Eros a observa e vê
o que também eu vejo
uma beleza que ofusca os olhos,
mais os meus do que os deles, Eros
e isto é obvio: ele é deus eu não
Vemos juntos aquela bela figura de
mulher
com a cabeça encostada nas mãos
enquanto o corpo, de bruço, repousa
suavemente
De repente, a ventania...
acorda Psiquê de seu sono profundo;
redemoinhos de pétalas roxas sobre ela,
tormenta, tempestade, furacão...
Eros desesperado, Psiquê em “transe...”
Há pedras despencando, árvores à cair.
Correm as cores... voam as flores
de repente, tudo volta ao normal
como se nada tivesse acontecido e
Psiquê volta ao seu sono profundo.
As horas voltam ao seu canto e
a natureza repousa graciosamente
Olho para um límpido lago
e vejo um ancião em súplice posição
Nesse instante percebo que não o
Tempo passa por mim,
Mas sim, sou eu quem passo por Ele.
© 2000 / 2010 Universidade São Judas Tadeu