XX Concurso de Poesia
Simpósio MultidisciplinarPortal São Judas
O Concurso
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2000
1º Lugar

Saudade

Raquel Maria de Lima e Fonseca

A tarde morre devagar
E eu descanso na tarde minha
velhice precoce
Estendo a visão, que ainda tenho
boa, ao limite de minha imaginação
ainda jovem.
Vejo através dos edifícios as
montanhas de pedra ferrosa
que fazem parte da cor do meu
sangue.

Vejo as ruas nas serras,
dependuradas na natureza, a
desafiar:
- quem se atreve?
Vejo o sol dando o último sorriso do
dia, escondendo-se atrás da
montanha mais alta
Qual?

Vejo que venta bastante,
pois o ar se lamenta de tanto
trabalho de se desviar de talvegues
de ruas e morros.
Vejo que o azul daquele céu
reluta em permanecer intocado
Azul infinito e sem mácula,
absolutamente azul

Vejo que ainda sonham poetas
e cantam e bebem, inventando
amores. E riem das falsas meninas,
que atravessam as esquinas
vendendo favores.

Vejo que o gosto das casas
é o gosto das almas de mineradores
Vejo nas manhãs de descanso
o descanso de ruas que vi borbulhar.
Depois o almoço em família,
a conversa fiada, lar.

Eu vejo, de passagem na ponte,
um belo horizonte no meu olhar
E choro, saudade infinita,
mas boa e bendita a me alimentar. A
tarde morre devagar.
E eu descanso na tarde minha
velhice precoce.

2º Lugar

Arquitetura do Verso

Maria Lucília Carvalho de Oliveira

Como fazer o verso?
O começo-meio-fim
em que ordem aparece?

Não é como o ovo e a galinha.
Nada é primeiro.
Nada é por último.
Deve ser mais fácil.
Deve ser bem mais fácil.
a arquitetura do verso.

Para o poeta, sim,
diria alguém.
Mas, e para os outros
que não o são?
Sei lá.

O complicado para o poeta
é falar sobre o assunto.
O poema já vem pronto.
Começo-meio-fim
(alla Dante)
(blocos de palavras)
à Bandeira, à Pessoa.

Ardósia-rejunte-argila
(con el aval del gran Neruda)
(in the memory of Shakespeare)
em tributo ao mestre Drummond.

Que o seja.
O poeta só sabe mesmo
é fazer o verso.
O poeta nem imagina
a arquitetura do verso.

3º Lugar

Mulher de Cera

Alaíde dos Santos

Era fria e feia a tarde
Era forte e franca a mulher
Mulher de cera no outono
Sem brilho na face
Sem cores no olhar
Era fina e fraca a garoa
Era fúnebre e fútil a mulher
Mulher de cera no outono
Sem brio na forma
Sem nada no olhar
Era findo e falso o domingo
Era fantasma e ferina a mulher
Mulher de cera no outono
Sem encanto nos lábios
Sem futuro no olhar
Era feitiço e fero o desejo
Era fervida e fiel a mulher
Mulher de cera chorando no outono
Sua fortaleza ruindo sem pena
Das suas fraquezas...

Só sabe a mulher.

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