

Fernando Mathias
Entre quatro paredes
despem-se as fantasias
e encenam-se as verdades da vida
Entre quatro paredes
julgam-se os justos
e inocentam-se os criminosos
Entre quatro paredes
fecunda-se a vida
e a vida arranca-se
do ventre recém-fecundado
Entre quatro paredes
decidem-se os destinos
e os destinados
Entre quatro paredes
sem portas e sem janelas
trancaram os meus sonhos
e jogaram a chave fora.

Viviane Martins
Colherei os louros frios da vitória
E sentarei, sozinha, nesta imensa mesa
E me fartarei do pão e do vinho
Olhando, de relance, para os velhos
fantasmas
Que me fitam, atônitos, por trás dos
meus ombros
Colocarei minhas mãos espalmadas
sobre a mesa
E recitarei os versos antigos de minha
infância
E cantarei a música que aprendi outrora
Com a voz da menina que um dia eu fui
Levantarei da mesa, tristemente
Satisfeita,
E me fitarei no grande espelho oval
da sala
E contarei as minhas rugas, uma a uma
E me adequarei à minha imagem já
pintada no espelho
E com um lápis acrescentarei a ela as
marcas recém surgidas
Deitarei, enfim, entre os meus lençóis
gelados
E colherei os louros frios da vitória.

Evelin Cristina Trevisan
Não sou lembrança de ninguém
Não fui a festas,
não comemorei meus aniversários,
e nem me despedi de nenhum amigo
à partida do trem.
Nunca chorei por ninguém.
Não fui a nenhum velório lamentar o
parente perdido
nem derramei meu pranto ante a
vitória de um ente querido.
Não chorei pelos amores frustrados
nem pelo último adeus.
Mas fui o espectro da solidão
Estive com a moça triste e
acabrunhada
daquela comemoração.
Fui o vazio que o amigo sentiu
ao se despedir de quem ele deixava
para trás.
Fui a encenação triste do velório
que, sem nenhuma lágrima,
apaga as últimas velas.
Fui o silêncio falso e desolado do
fracasso
e o olhar que se perdeu no ontem
e não enxerga o amanhã.
Ri dos amores
pois fui o vendaval que os levou
fugazes
Estive presente naquele último olhar.
Não fui o choro contrito
nem a derradeira palavra solta pelos
lábios,
mas fui a tristeza de ver o presente
se tornar passado fútil
porque fui a mão que se estendeu,
pesada e amarga, ao dar o último
adeus.
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