

Maria Lucííia de Oliveira
Ninguém sabe de mim
Nesta manhã paulistana
nenhuma edição extra
dá notícias de mim.
A tarde se esconde
A noite se faz dia
E ninguém fala em mim.
Distante da serra
exilada em mim
nos quadrantes
dos desencontros
me perdi
Entre carros
viadutos
gente apressada
descuidada
cruzando a cidade
buscando o aconchego
ninguém fala em mim
ninguém sabe de mim

Rogério Pelizzari de Andrade
Do que lembrar
Que não ferir
Se o passo é longo
E a noite é curta?
Pensei que um dia
A vida lenta
Abrir a porta
Livrar tormenta
Devo chorar
Devo engolir
Do vosso sangue
Vossa ferida?
Sou meu futuro
Já fui presente
Morrer ausente
Correr do mundo
Devo esperar
Ou desistir
Da benção certa
Do Deus errado?
Fingi soluço
Jurei a fé
Pecar de novo
Dever e sina
Não tenho forma
Mas tenho alma
Sou a procura
O infinitivo

Alaíde dos Santos
Minhas palavras terão hoje
o peso de uma corrente,
o amargo gosto do fel,
o grito rouco de um louco,
o desespero de um condenado,
a náusea que turva a vista,
o mofo dos porões umedecidos.
Minhas palavras serão hoje
faca afiada de dois gumes,
estalactites pontiagudos,
para furar sua alma ingrata,
e jorrar seu vermelho e quente
sangue, sobre meus brancos
e frios versos.
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