

Maria Clotilde Andreotti Ramos
Está na argamassa
no rejunte dos pisos
dos azulejos
no reboco interminado
no vão
no batente
Está no pé direito
no andar superior
na caixa do pedreiro
na colher
na desempenadeira
Está na pá, na enxada,
está na picareta,
na girica
na lata
na pinga para começar
e terminar o dia.
Está no que se vê pela janela
e no que se sente ao andar
pela construção
Está lá o sonho do arquiteto.

Letice Conceição de Moura
Pela manhã sem sol,
estes meninos.
E a noite não tem lua.
Só a rua,
os caminhos.
Um cansaço ao percorrê-las...
Pela manhã de névoa,
úmida neblina, estes
meninos.
Para acompanhá-los nada mais que
os passos.
Sem consolos, nem abraços.
Sem café da manhã, estes meninos,
para quem cantam os pássaros
e as flores dão bons dias.
Também a tarde estes meninos...
E nos rostos um ar mais desolado.
Um arreganhar de dentes
que parece riso.
Por todas as vinte e quatro horas,
estes meninos.
Sem tardes,
sem noites,
sem manhãs.

Maria G. Xavier
Fui amante de um corpo vazio
Beijei uma boca seca, quase sem sabor
Observei uma alma sem mistério
Deliciei-me nas carícias covardes e sem medidas
Supri seus anseios nervosos como que fatais
Silenciei minha lágrima em seu orgulho imortal
Fiz da maldade sincera uma brincadeira vulgar
Escapei do leito nocivo
Tingi minha saudade de preto
Tranquei-me na distância do tempo
E tornei-me um palhaço da vida
© 2000 / 2010 Universidade São Judas Tadeu