
Revendo e ouvindo Tom Zé
Em 2007, um documentário ficou em cartaz em única sala de cinema na Avenida Paulista, mas assim como entrou, saiu, duas semanas depois. Achei que não ia vê-lo de novo, mas uma mostra do Centro Cultural Banco do Brasil resolveu a (minha) inquietação.
A proposta daquelas exibições era justamente mostrar películas que falavam de música, esse universo encantador do que eu considero uma das melhores invenções humanas. Dentre alguns muito bons o documentário Fabricando Tom Zé ficou na memória.
A direção é do então estreante Décio Matos Junior, que com sua equipe, acompanhou uma turnê de Tom Zé pela Europa em 2005. O filme mescla imagens dos seus shows ao redor do mundo e conta também parte da história do músico em sua pequena cidade natal, Irará, na Bahia.
Para quem não sabe Tom Zé participou do movimento Tropicália, junto com outros músicos como Gilberto Gil, Mutantes e Caetano Veloso. Depois disso, fez carreira solo, mas seu público, diferente dos mais famosos, ficou circunscrito a elite intelectualizada das universidades.
Depois de uma época de semi-ostracismo, ele reaparece e tem seus discos lançados na Europa e nos Estados Unidos por David Byrne do Talking Heads. É por conta desse ressurgimento da obra de Tom Zé que ele faz tanto sucesso no velho mundo, como fica evidente no documentário. Em uma cidade da França, os ingressos para ver o seu show acabaram três dias antes dele e da trupe chegarem.
Em um de seus depoimentos, Tom fala da sua relação com a censura, e os agentes da ditadura, nos idos de 1970. Muitas vezes os músicos, convidavam seus algozes e tomavam umas e outras para tentar dissuadi-los. Em uma de suas letras, ele teve de trocar a palavra “arroto”, por “sopro”, pois a censura achava que era feio. “Ficou uma bosta”, brinca Tom Zé.
Algumas canções do baiano de Irará ficaram famosas como São Paulo Meu Amor (canção que ele participou em um dos Festivais da Canção da TV Record) e Augusta, Paulista e Consolação. No filme, essa última é executada quase totalmente, com uma sobreposição de imagens de Tom por São Paulo e em shows na Europa. É emocionante ver os gringos se rendendo aos versos da canção que perpetuou a figura de Tom Zé ao baiano mais paulista de todos.
Tom está muito à vontade frente à câmera, que o acompanha desde os shows aos quartos de hotel. Sem papas na língua e sem se preocupar com meras politicagens, em certo momento, ele achincalha os organizadores do festival de Montreux e aproveita para dar um sermão e reafirmar sua posição, rejeitando a nossa síndrome terceiro-mundista.
O desagravo se resolve, segundo palavras de sua esposa, mas faltou no filme um esclarecimento nesse aspecto, bem como uma espécie de rixa entre os tropicalistas Caetano e Gil que não elucidam a saída de Tom Zé do movimento musical. Ficou no ar.
Polêmicas à parte, o filme merece ser visto. Ainda bem que existem ações como a do Centro Cultural que permitem (re)ver o que a nossa brasilidade tem de melhor.

Fabiano Oliveira
Estudante do 4º ano de jornalismo da USJT.

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